Da Copa para a vida

Copa do mundo.

A minha primeira lembrança da Copa é de 1994.

Eu tinha 10 anos, meus pais ainda eram casados. Morávamos em Belo Horizonte.

Eu me lembro que sabia cantar a música (“Na torcida tem milhões de treinadores, cada um já escalou a seleção…”)… bem, sei cantar até hoje, 28 anos depois.

Eu me lembro das celebrações dos gols. Teve um que o Bebeto fez um movimento embalando um bebê, porque sua esposa estava grávida. Foi tão lindo!

Eu me lembro do “sai que é tua Taffarel!”, e do cabelo arrepiado do Dunga.

Eu me lembro daquele pênalti chutado para fora, para bem longe do nosso gol, que nos deu nosso Tetra campeonato.

São lembranças tão queridas da infância, da vitória e da alegria.

Pula para 1998.

Brasil perde de 3 x 0 para a França.

Eu já morava em São Paulo. Meus pais já tinham separado. Era uma adolescente, não mais uma criança.

A derrota bateu dolorida e pensei: “Não vou mais torcer. Não adianta ter esperança nisso, porque se perde, meu…se perde é muito ruim.”

Então virei uma “não torcedora”.

Uma “não me apego com essas coisas não…”.

Mas era medo de acreditar e sofrer, novamente.

Ok, eu sei que estava sendo meio mimada, porque tive o sabor da vitória muito cedo, e não levava em consideração os 24 anos que se passaram entre o tri e o tetra.

Porém em 2002 aconteceu algo incrível.

Eu tinha 18 anos. Estava fazendo cursinho. Não tinha ideia do que fazer com minha vida.

E o Brasil foi Penta.

E eu não tenho lembrança nenhuma.

Isso pode parecer normal para algumas pessoas, mas pela minha descrição da copa de 1994, você deve ter percebido que sou uma pessoa que se lembra das coisas; de coisas muito muito antigas.

Porém não me lembro do Penta, bem, porque não torci.

E assim foram nas demais copas.

2006, 2010.

Em 2014 eu estava grávida do meu filho.

A copa foi no Brasil porém nem me emocionei muito.

Sofri com os 7 x 1 sozinha no meu quarto, ouvindo Galvão Bueno gritar gol após gol da televisão da sala, em um espaço de tempo curtíssimo entre um gol e outro.

Aí pensei: “agora que nunca mais torço mesmo na vida”.

2018, outra copa sem lembranças.

Porém chegamos em 2022.

Meu filho já tem 8 anos. Ele completou o álbum da copa, ele sabe o nome de todos os jogadores.

Pensei, talvez eu consiga torcer um pouquinho.

Então comecei a ver um monte de gente falando bem sobre nosso time, e como a gente estava bem na competição. Bem, talvez a gente tivesse alguma chance.

Comecei a acreditar.

Assistia parte dos jogos, ora aqui, ora ali. Com um pouco de medo, bem, com muito medo de me entregar para toda aquela emoção.

Foi então que jogamos contra a Coréia do Sul.

5×1!!!!!

Eu e meu filho pulamos, gritamos, cantamos e fomos tão felizes naquele jogo.

Eu comemorei como se a gente já tivesse ganhado a copa. E foi aquela felicidade geral!

Bem, estou escrevendo esse post depois da eliminação do Brasil. DE NOVO.

E por que resolvi escrever sobre toda essa experiência com a Copa?

Porque dessa vez não terminei a Copa desgostosa e com raiva, me sentindo uma idiota por acreditar.

Termino a Copa feliz porque dessa vez tenho essa lembrança preciosa de torcer com meu filho. Sinto em todo o meu coração como fomos felizes, e sempe vou me lembrar de nossos gritos e saltos e corridinhas pela sala.

Da Copa para a vida, quando deixamos de viver as coisas com medo de sofrer, perdemos muitas oportunidades também de sermos felizes.

Ok, isso pode parecer chover no molhado, todo mundo sabe disso.

Mas não é porque sabemos disso, que deixamos de nos proteger para não sofrer.

Sim, é preciso um pouco de proteção.

Mas também é preciso abraçar o momento sem ficar toda hora preocupado de como vai doer quando aquele momento passar.

O momento vai passar de qualquer maneira, aproveitando ou não.

Por isso que já me preparo para 2026, um pouco desejando o Hexa, mas principalmente com o coração aberto para colher mais memórias de alegria.

Vou ser feliz (ou não) jogo após jogo.

Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Direitos Reservados

Publicado por Juliana Lins

Olá, meu nome é Juliana e amo escrever. Fico muito feliz com sua visita em meu blog! Abraço, Juliana

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